quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

É Preciso Saber Viver



Viva e deixe viver.
- Live and Let die - 

É o toque. Claro que não. Nunca poderia ser. Jamais ouse, respirar o que sou.
Pouco importa, não é preciso saber viver. Tão pouco, saber compreender.
É tão pouco, dentro do muito que quero, é tão menos do pouco que espero.
É nada, se nada entende. É tão menos se nada quer, se teu corpo nada alcança.

O português não falha. Não haveria línguas, enfim, para expressar o que deveras fosse.
E o que te importa? E o que me importa? Se tanto faz ou quem fez, que importa o que digo ou silencio?
São palavras ao vento, e o vento, nem ao meu rosto faz cócegas. Quem me dera, algo me dissesse...
Nada dizem todas as bocas. Perda de tempo diz o mais sincero olhar. Estranho, sozinho e prisioneiro.

Quem me deras amar fosse. Deleitaria enfim, sublime, doce e sereno.
Engano que me leveda. Torpor que me engana.
Tão pouco consigo esquecer.
E quanto mais longe me deixo estar, tua voz me guia e me fascina.

Te levo sempre em meu olhar.
Não canso de te procurar, entre meus lábios sinto à falta de você...
Assim... profundamente minha.

Sou um tolo confesso.
Se existe um céu.
Você sempre será...
Inesquecível para amar.

Se eu não tiver você.
Agora e sempre vai estar.
Presa em meus lábios.
Inesquecível em mim.

Morreria enfim.
Se de você nada esperasse.
Morreria ingrato, se de você, nada sonhasse.
Viva em mim teus sonhos, morra em mim teus medos.

De nada vale qualquer coisa enfim....
Viva!

Λύκος

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dano e Reparação


- O Crepúsculo dos Anjos - 

Ato I

É uma fração de segundos e o erro reduz tudo a pedaços.
A quase estática do tempo, move a cena quadro à quadro.
Conceitos, sentimentos, emoções, características, etc.
E na pausa do momento, tudo se esvai pela lógica do vento.

Num borrão na tela à óleo, a desfiguração do que dantes se acreditava ser perfeito.
A colisão de ver e ser, da visão e realidade. Qual é a fronteira de tudo ser o que se vê?
Como uma transmutação de mundos, o ranger de dentes do espírito e a carne dilacerada,
As janelas da alma destruídas ao contemplar seu próprio inferno particular.

O céu em chamas vomita seus anjos por terra.
Caídos então, com as asas despetaladas, perdem sua divina graça.
O mundo virou às costas, às nuvens já não cobrem sua vergonha.
Tudo está nu, patente, descoberto, revelado, o erro, o vil pecado.

Todos os ídolos estão depostos, o templo fora profanado.
Do altar jorrou sangue quente, e da face rolaram lágrimas de vidro.
O verbo vivo tornou-se pedra, a crença e a fé, a um só tempo, ruíram.
Perda, frustração, impotência, traição, derrota, miséria e humilhação.

Se pela vontade se impusesse qualquer querer,
Num só instante, abriria a boca do inferno e as comportas do mar do esquecimento.
Queimaria vivo o coração das más intenções, e mataria jovem a inocência do coração partido.
Porque pela boca, maus e bons desígnios, sempre fala do que o coração está cheio.

Terra de perdição, lar de miséria tão humana.
Onde frustram-se os sonhos e extravia-se o bem querer.
Pois o que era santo e separado, agora, jaz ímpio e maculado.
Crepúsculo dos anjos, a queda da luz perfeita para a obscura imperfeição.

E no abraço leviano, ser levado distante, à provar do beijo, o gosto amargo.
Porque nos braços está a entrega, nas mãos, a confiança, e nos lábios, a intimidade.
E diga então, qual é o juízo perfeito para quem se julga em perfeito juízo?

Não deveria haver crimes sem castigos.
E nem mesmo condenação sem seu devido juízo.
Mas, nem sempre o melhor veredicto é aquele que condena,
Pois, o perdão mora ao lado da dívida, e o dano é vizinho da reparação.

Assim é o poder de perdoar a quem nos tem ofendido.
Mas, quanto as nossas ofensas, quem poderá nos perdoar?
Pois o perdoar, retira do nome, à lama, reintegra a dignidade humana.
Mas, qual é a cura para àquele que aprendeu a perdoar?

É fácil perdoar a quem se ama,
Porém é difícil reparar o dano de quem ama.
De quem ama, quem irá sarar a sua ferida?
Quem dividirá - e tornará leve o seu fardo?

Pois a ferida ficou aberta,
E o ferimento exposto é chamariz de toda impureza,
Infecta a alma, e adoece em dores o corpo.
Haverá bálsamo para cicatrizar sua ferida, oh perdoador?

Ato II

Ao ver teu amor nu, deste-lhe tua capa para encobrir tua vergonha.
Que braços, agora, irão aquecer teu corpo, pois deste-lhe sem pedir-lhe nada em troca?
O amor andaria contigo ainda mais uma milha, daria a vida por um amigo?
Perdoar deva mesmo ser divino, pois, nunca leva em conta tudo o que há de humano em nós.

Que poder há de encobrir a sua vergonha,
Qual força dará novo brilho à sua dignidade,
Quem se atreverá a consertar o que fora partido,
Quem de nós dirá o que é possível para o amor?

Revestido de humildade,
Quebrado pela mais pura e ignóbil vaidade.
Travestido de bom coração,
E marcado cruelmente pela mais torpe decisão.

Digo, com minha própria tenra voz,
E me faço, dos menores, muito menor ainda.
E digo, na minha força, eis o quanto eu sou fraco!
Pois, honestamente, de toda a verdade, é que não sei!

Ato Final

Deus!! Que canso de tanto procurar.
Não corrói minh'alma, por se ter mentido para mim.
E sim, por ter me feito acreditar.
Perdoai a mim, como tenho perdoado a quem me tem ofendido.

Trago em mim marcas e cicatrizes de antigas guerras.
Tenho um humor agridoce, e pessoas que nunca mais tornarei à ser.
Andei por desertos de privações, e já sofri perdas terríveis.
Às vezes, decepcionei alguns, e por vezes, eu mesmo.

Já briguei com Deus, e obviamente, perdi.
Já acreditei no amor, e me magoei.
Já tive medos que jamais foram embora.
Já tive fé, quando na verdade, eu precisava perdê-la.

Se não existe amor, retira de mim este coração.
Se não existe o bem, retira-me deste mundo.
Se não há anjos nesta terra, não me tente a acreditar o contrário.
Se não há quem possa me amar por inteiro, e de coração verdadeiro...

Risca meu nome do livro da vida!

Porque o mundo todo está desmoronando sobre mim,
E parece que já não há mais nada que eu possa fazer.
Eu só quero a minha terra, minha casa, meu lar.
O único refúgio, que mentia para mim, estar seguro.

Talvez essas muitas linhas sejam crônicas de uma vida real,
Ou palavras de um escritor imaginário, sobre fantasias e ilusões.
A verdade, é que escrito, tudo isso, ameniza... a dor.
Não mendigo pena, nem tão pouco deixo de esperar compaixão.

Desejo apenas, dano e reparação.

Λύκος 



O Carteiro e o Poeta



O Homem de Barros

Essas cinzas nuvens que envolvem a face do sol,
despencam fortes pingos para o seco chão molhar.
Entrevejo o ar, o espaço vazio, e esse cheiro agridoce de poeira,
que sussurra-me ao ouvido em mistério de que algo está para mudar.

É o vento que curva sua direção, e encontra a minha face,
beija-me o rosto, tornando-me por gosto,
a menção de um viver que valha a pena ter.

E esse tempo nublado, segue em parte, um templo nebuloso,
do próprio espaço e tempo. Neste momento, somente silêncio.
E tudo, por um segundo, totalmente paralisado.

Eu então me prostro, para lembrar o som da tua voz,
e inspiro tudo que me rodeia, na saudade de você, do nós,
do chamar o teu nome, do toque das mãos, e o caminhar lado a lado.

Olhando assim, não há quem diga que não sou livre,
quando assim sonho, sinto, e respiro.

Um dia como esse, revive você
teu olhar, teu beijo, teu riso
teu andar, tua beleza e teu gracejo.

Quem sabe o que é ter sem querer para si,
sente a dor de sentir,
e sabe o que é ver sem querer partir,
mas, não ter para onde ir.

Quem sabe o que é ter e perder alguém...

Na memória, o sentimento amassado, o grito amordaçado.
Uma vontade louca de mudar o rumo, destruir as estruturas,
entrar de próprios punhos e revirar todo o mundo.

Só para beijar-lhe o rosto,
e desfrutar um instante mais,
daquela tua candura.

Mas, o tempo vem,
e você tem que ir embora,
sem saber se era a hora.

Faz tempo,
mas ainda lembro
às vezes peco,
e é quando pensando ainda me pego
"e agora?"

Agora...
teu presente habita meu passado.
Distante na lembrança, e perto do coração.
Sei que meu futuro segue, sem a esperança de ter,
você do meu lado, meu presente.

Das fotos, recordações, livros e discos empoeirados,
resta a dor e o amor e tudo aquilo que ainda sentimos,
e por vezes mal coube dentro de nós.

Dia infame, em que perdemos parte de nós,
faz tanta falta, esperar...
sem ter para quem voltar.

Findo aqui, sei que os versos dessa carta nunca os lerá
Seja como for, fica a saudade do teu abraço e a certeza

De que tua vida segue...
O horizonte dessa estrada.

Λύκος 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Monte Castelo



É só o amor...

Passar dias, meses e anos,
Quem faz menção dos mesmos?
Não há de passar despercebido tudo isso?
Segundos, minutos e horas, tudo passará enfim.

E o que ficará afinal?
Restará em nós coisa alguma?


Lembro teus olhos, castanho amor.
Quem dirá que nada restou?
Quem dirá que para o sentimento o tempo passou?

Não são as palavras que enfim me convencem,
Nem tua voz macia que me seduz,
Tão pouco teu perfume suave que me envolve.

Contemplo teu rosto, sem explicação, o que então me atrai?
Se fosse desejo, de mim passaria.
Se fosse teu corpo, um dia enfim, definharia.

... É só o amor.

Λύκος 


O Ser Amado



O Ser Amado
(sobre o dom de amar)

Me ame, mas, não me peça nada
Isso nunca foi uma troca
Me ame, mas, não me possua
Isso nunca foi uma compra

Olhar fixo em teus olhos
Firme fundamento de onde quero estar
Não me impeça de ficar aqui com você
É exatamente o lugar que sempre desejei ficar

Tudo te entrego sem nada antes me pedir
Porque os rios que correm de ti inundam meu ser
E nos teus braços, eu de nada preciso, nem sinto falta
Quando do teu rosto brota um sorriso, sou gigante... sou pleno

Pois de todos os amores do mundo
Nenhum supera, o amor gratuito, imerecido
É o estado de graça que nos contempla
Um alívio imediato de qualquer tormenta

Impera universal o imperativo: ame!
Ame até... acima de todas as coisas.

Fecho os olhos, esqueço o barulho.
Silencio as palavras e respiro profundo.
Um salto de peito nu sobre o abismo da desconfiança
E no medo da queda livre, um último fio de esperança

Presa à minha mão, uma outra entrelaçada
Firme e forte, me trazer para perto, junto de
Lábios que jorram mel, de seios que emanam leite
Perfumes enebriantes, e cabelos opaco mel

No corpo de Vênus deleitar o mais sublime amor
Sussurrar a ventos dionisíacos a mais doce sinfonia
Desvidraçar os espelhos das diversas realidades,
E perpetuar as mais loucas ideias e fantasias

O casamento químico e físico
Dos mais urgentes sentidos da vida
O poder de amar e ser...
Ser amado.

Λύκος 

O Talento Perdido


O meu talento

O meu talento!... De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que me não tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem aonde está, que tem saudades sei lá de quê?!
    ✰18/10/1998

Lembranças e Memórias




Filhos
(Lembranças e Memórias)

Como desejo ter em meus braços, o fruto do amor
Acalentar e embalá-lo com as mais lindas canções
Ver em seus olhos o reflexo do que foi perfeito
E no seu sorrir ver novos mundos se abrirem

A inocência perdida, estará ali, por um momento, desmedida
Seu encanto varrerá os porões dantes entenebrecidos
Porque a felicidade sorri de volta diante da adversidade
E o abismo rugirá em derredor das pontes indestrutíveis do amor

O brilho da pequena resplandece em meio às lamúrias deste mundo tenebroso
Pois a vida é filha da promessa, e, o amor e a esperança são seus pais
Milagres são com a chuva, caem sobre todos, aos pobres e aos afortunados
A fé é que faz brotar tudo por onde passa, e onde muito faltava, é onde agora pouco basta

A mais perfeita sintonia, entre homem e Deus, o mais bonito elo
Seu semblante frágil e rosado, e a luz do esplendor de Sua glória
Um misto do temor humano com a divina ousadia
E do nada, criou-se a vida, e num abrir e fechar de olhos, o seu nascimento

Assim nascem os sonhos que alimentam as nossas almas
É a mulher acometida por dores de parto, é quem dará a luz a sua paz na terra
No seu ventre, o sopro sagrado, transforma o corpo em alma vivente
E em seu colo, provo o dom do amor, e creio que nenhuma alma nasce pequena

Então eu serei um dia lembrança e memória de quem fui
Porque sem você eu jamais serei, e eu sei, que você não tornará a mim
Mas, que eu viverei para sempre em você e você para sempre em mim
Então eu serei um dia lembrança e memória de quem fui.  

Λύκος 

O silêncio dos Inocentes




Epitáfio
(O Silêncio dos Inocentes)

Que fio prata, tão tênue, que segura nossa vida nesta terra.
Sua fragilidade desmorona, mesmo a criação mais bem edificada.
É numa fração milimétrica de segundos, então vemos a eternidade diante dos olhos.
Nascimento, infância, juventude e velhice, chegam sobre nós a um só tempo.

Quando os olhos perdem o brilho, e o último fôlego de vida se esvai.
Resta o corpo inerte, a casa vazia, os móveis imóveis, como quem os deixa de saída.
O sol se põe e o espelho desvidraça a vida, e num último embate, nos despedimos dela.
Assim, como no meio da peça, de súbito, o espetáculo que encerra suas cortinas.

O olhar embasbacado, o peito atônito, o frio gélido e o arrepio da própria alma, a morte.
E no teu beijo, prova o gosto amargo, que quero e não desejo, mas tenho que encontrar.
Ao fechar dos olhos, todos a nossa volta são tragados por um momento, pela escuridão.
Às apalpadelas tentamos encontrar a saída, a luz no fim do túnel, que nos traga de volta à vida.

Mesmo a vida mais bem vivida, quando finda
Não há choro que se contenha, não há pesar que não se sinta
O luto bate à porta, a tristeza invade as janelas, e o colorido fica cinza
E tudo retorna ao pó, sem honra e glória, só o sofrer desatino aos que ficam.

Eu queria te encontrar, mas já não sei onde procurar.
A bem da verdade, é que me teme ao peito, o pavor do que eu sei que posso encontrar.
Sobra a vida, curta e sem medida, o clichê da rima, pois o espetáculo tende à continuar.
E cada vez que digo adeus, sinto o mundo pequeno, e o ar pesado demais, para respirar.

Uma lágrima, um adeus, e você se vai.
Deixando para trás todos que te amaram.
Seguindo em frente para Àquele que te amou primeiro.
Não sei dizer, se é mais feliz, quem parte, ou quem fica.

Por enquanto, bastam a memória e um último...
Adeus.

Λύκος 


Depois de Nós



Depois de Nós

O que será de mim, o que será de nós.
Sonhadores de berço, amantes de tudo o que é verdadeiro.
Felizes inconformados, e resistentes à maldade.
Crédulos da fé, da esperança e do amor.

A indiferença do mundo, nos é de todo detestável.
Esse sistema de corjas, bajuladores da mentira e pais de todo engano.
O preço baixo da traição, o valor quase miserável da reputação.
Um mundo inteiro de aparências, dissabores e dissoluções.

Não há nenhum Deus, nem família, não sentimentos, nem emoções.
Não há indivíduo, não há mais vontade própria, sendo assim, nem se quer existe o homem.
Os bons amigos se foram, nem mesmo nossos velhos mestres sobreviveram.
Todas as formas de poder a um só tempo tornaram-se descartáveis e obsoletas.

Quantas vezes o vento passou por nós sem percebê-lo.
Quantos dias trabalhamos ao sol sem perceber o astro rei que nos ilumina.
Quantas outras noites, fadigados pelo dia, não admiramos a luz do luar.
E por fim, nem nos damos conta, da chuva que sagradamente molha e lava nossa alma.

A essa geração, fica o gracejo da sabedoria do velho amigo Baltasar:
“Muitas coisas vieram a parecer antiquadas: falar a verdade, manter a palavra.
Que triste época esta, quando a virtude é rara e a malícia é comum!
Vivamos o melhor possível, como podemos, embora, não conforme gostaríamos.”

Λύκος 

Left Behind





Deixados para Trás
(Left Behind)

Eu sou o alfa e ômega, sou o tudo e o nada.
Como pode ser, ser alguém que não se é?
No momento de desvario e insanidade que nos leva ao erro.
Quem sou eu, quando peco, e erro o alvo do meu desejo?

Quando obscurecemos o que há em nós.
Há sempre um crime e castigo, um dano e reparação.
Deixamos turvas, as águas de quem vê através de nós.
Assim é em mim, em nós, seja no corpo ou nas coisas do coração.

Eu quero amar como se ama todo amor.
Anseio imenso te amar sem errar, sem ante falhar, sem magoar.
O amor é benigno, não suspeita mal, não se porta com indecência.
Não se irrita e não busca seus próprios interesses.

Humano e pequeno demais, falho, limitado, e  imperfeito amor.
Em cada tropeço, a morte lenta da expectativa criada.
O amor não me corrói tanto se me acerta,
O sofrer da pessoa amada é que me aniquila a alma.

O perdão deve ter sido criado por quem já não suportava mais a dor de ter errado.
Pois seu fardo é pesado, descai o semblante, enfraquece o espírito e envenena a mente.
Como a marca de Caim, que por mais que se empenhasse, era sempre digno de pena.
Tudo tende ao que é mal, errar se torna intrinsecamente humano, e o perdoar, divino.

Contemplo meu rosto no espelho, é a mesma face, mas com muitas considerações.
Fragmentos difíceis de terem ligaduras, lascas imperfeitas sem polir, estranhas peças em mim.
A beleza simples, o humor trivial, o espírito jovial, a cordialidade, e o cuidar de quem se ama,
Não posso tê-los perdido de vista, não há sentido não lutar para que o bem presente resplandeça.

Eu talvez seja um bobo da vida, de nada me deleitei no banquete da sabedoria.
Perdido em mal juízo, descri das pessoas no mundo, e de tudo o mais em mim.
Mas, não quero ser o resto, o que sobrou de mim. Me quero por inteiro, ainda que com erros.
Quero o melhor e o pior de mim, me quero por completo. Quero me render por inteiro.

Estou diante de você.
Tudo está claro como o dia.
A menor mancha está à mostra.
Toda força e fragilidade, exposta.

E de joelhos, confesso minha oração:
“Quero aprender com meus erros, e não mais cometê-los.
Sei que não vai ser tão fácil assim, mas, difícil é continuar no erro.
E viver esse mesmo desespero, e ser deixado para trás.”

Λύκος 

Anjo de Vidro




Anjo de Vidro

(Anjos são os nomes daqueles que estão juntos de nós, e caminham conosco.

Anjos que nos protegem e nos guardam, do mundo, e muitas vezes, de nós mesmos.)



Contemplo teu rosto, branca, meiga, e castanha.

Beijo os teus olhos no intento de revelar tua alma.

Te tomo em meus braços na esperança do abrir de tuas asas.

Espero em tua voz, a calmaria das ondas deste bravio mar.


Por teu amor, guia-me às águas tranquilas.

Vivifica a fé e ressuscita o sonho de poder novamente crer.

De que tudo é muito mais do que meus olhos podem ver.

Por teu amor, torne a noite, dia; e a tempestade, serena e tranquila.


Quando teus pés tocam o chão, toda a terra se cala perante tua voz.

E ao bramir de tuas asas, o tempo se converge ao romance mais épico.

Luz e cores vivas colorem um mundo obscuro e desbotado.

Sua presença aqui, traz-me o amor em meio a guerra, silencia a legião em mim.


Quero meu corpo junto ao teu, pois teu perfume é melhor do que o vinho.

Cada vez que estou contigo, estrela cadente a me alumiar, eu percebo o infinito.

Tua graça e beleza, é a porta aberta, para os pés de quem persegue o paraíso.

Desejo minhas mãos junto às tuas, de aliança perfeita, entre amor e união.


Anjo, você nunca esteve tão longe que eu não pudesse ver. 


E por muito tempo nem tão perto que eu pudesse tocar.


Que eu possa tudo sofrer, mas desconheça a maldade.

Que eu possa tudo crer, mas reconheça a dúvida.

Que eu possa tudo esperar, mas não me entregar a vaidade.

Que eu suporte, mas jamais esqueça, que o amor é o dom maior desta vida.
 
Λύκος 
 
 

domingo, 13 de novembro de 2011

A Lei do Tempo



A Lei do Tempo

A vida segue seu itinerário errante. Dia após dia, hora após hora. Cotidiano.
As pessoas seguem o fluxo, o tráfego é sempre intenso e por vezes, monótono.
Dividimos nossos dias, mas, impressiona a similitude que há entre eles, sempre os mesmos.
Todos os dias do calendário presumidos e resumidos em um único e somente dia, tudo igual.

Que dose tamanha de chatice e tédio que às vezes tomamos deles.
Furtivamente enganamos relógios e ponteiros, a fim de, apressar o nosso momento.
Quando enfim esgotamos das horas os minutos, qual é o remédio antimonotonia?
O que, irrequietos, ansiamos tão profundamente encontrar quando finda-se mais um dia?

Afinal quem é o vencedor quando trapaceamos o relógio?
Pois é bem certo que essas horas, e até mesmo o dia, NUNCA mais tornarão a nós.
E o que fazemos do resto então?
Depois do decorrer medíocre do dia, seremos reis e princesas ao anoitecer?

Quem desejamos encontrar quando o dia finalmente nos libera do seu pesado fardo?
Queremos estar a sós com nós mesmos? Ou encontrar alguém que nos afastou o dia?
A vida segue seu itinerário errante. Dia após dia, hora após hora. Cotidiano.
Todas as frações de tempo passando diante dos nossos olhos, alheios a tudo o que se passa.

As horas, minutos e segundos, são fragmentos da nossa vida.
Os anos, os meses e os dias, fragmentos de nós mesmos.
Através deles, somos moldados em nossa personalidade e individualidade.
Datas após datas, anos após anos. Furtivamente enganamos relógios e ponteiros.

Λύκος 

The Black Hole



The Black Hole
(O Buraco Negro)

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte...” (Sl:23;4)

Nada vejo, se não antevejo, sombra e escuridão e distintos sons.
O cheiro de terra molhada, o rimbombar dos trovões, e o corpo inerte, rente ao chão.
Umbral entre quimera e realidade, entretanto, ainda vivo.

Forço um levantar, se este é um fim, que eu esteja sobre meus pés afinal.
Luto com minhas pesadas pálpebras e este corpo abatido.
Sinto o espírito crescer dentro de mim, serão os primeiros raios de sol de um novo dia.

Ainda estou aqui, não fui tragado pela fúria do mundo, é a graça de um bom Deus.
Pela primeira vez, sinto em mim, a estranheza do sentir-se vivo, que graça eu,
que outrora imaginava ter atingido o meu limite, vejo agora, um desdobrar em mim.

A primeira sensação: dor, muita e inevitável dor.

Os olhos habituados à comum rotina, ardem diante do incomum.
As mãos sofrem com sua atual inépcia; que não tenho mais a destreza de antes.
Meus pés doem de tanto caminhar, então, mais dor.

Segundo momento: a fragilidade.

A coragem deu lugar ao medo, e o medo de errar trouxe consigo o mar de dúvidas.
Me vi desprovido de tudo que considerei ser eu, mas, que no entanto, somente me adornava.
E da incerteza vi nascer suas duas filhas: a necessidade e a carência.

Uma certeza: eu nada sei.

Sabia da filosofia, o mundo; já não sei. Sabia dos amores, as suas amarguras; já não sei.
Sabia da vida, toda sua plenitude; não mais sei. Sabia do dia mal, o seu alcance; não saberei.
Sabia de mim, quase tudo, embora, agora, o que eu sei de mim é quase nada... quase nada.

Lembranças e memórias, para repaginar a vida. Das experiências vividas, o eterno deja vú.
Detalhes pequenos que agora importam. Pois em cada momento, ali era o verdadeiro... eu.
Nas grandes realizações, era minha própria sombra, fui como se nunca, de fato, tivesse sido.

Talvez disso, venha a falta de senso, da noção, do real, do sentir-se plenamente perdido.
É um dar-se conta do sentido depois de milhas e milhas de caminhada.
Como um vislumbre do novo e mágico, porém, com o cansaço dos dias enfadonhos.
Quase Shakespeariano, ao apreender para si à vida, percebe também nela sua finitude.

Seria este o dilema? Seria esta a essência do insight?
Que a vida somente sorri de volta àqueles que compreendem a limitação desta.

Estágio Um: a negação.
Essa vida não termina aqui, outra idêntica me espera.

Estágio Dois: a barganha.
Se essa vida realmente termina aqui, prolongue-se o seu fim.

Estágio Três: a aceitação.
Permita-me viver todos os dias como se fosse o único dia de toda a minha vida.

Buraco negro, é onde estive.
O abismo entre o sonho e o real, a ponte desconexa entre a alma e o espírito.
Lugar dos umbrais do infinito, onde a Terra era sem forma e vazia.

Λύκος