- O Crepúsculo dos Anjos -
Ato I
É uma fração de segundos e o erro reduz tudo a pedaços.
A quase estática do tempo, move a cena quadro à quadro.
Conceitos, sentimentos, emoções, características, etc.
E na pausa do momento, tudo se esvai pela lógica do vento.
Num borrão na tela à óleo, a desfiguração do que dantes se acreditava ser perfeito.
A colisão de ver e ser, da visão e realidade. Qual é a fronteira de tudo ser o que se vê?
Como uma transmutação de mundos, o ranger de dentes do espírito e a carne dilacerada,
As janelas da alma destruídas ao contemplar seu próprio inferno particular.
O céu em chamas vomita seus anjos por terra.
Caídos então, com as asas despetaladas, perdem sua divina graça.
O mundo virou às costas, às nuvens já não cobrem sua vergonha.
Tudo está nu, patente, descoberto, revelado, o erro, o vil pecado.
Todos os ídolos estão depostos, o templo fora profanado.
Do altar jorrou sangue quente, e da face rolaram lágrimas de vidro.
O verbo vivo tornou-se pedra, a crença e a fé, a um só tempo, ruíram.
Perda, frustração, impotência, traição, derrota, miséria e humilhação.
Se pela vontade se impusesse qualquer querer,
Num só instante, abriria a boca do inferno e as comportas do mar do esquecimento.
Queimaria vivo o coração das más intenções, e mataria jovem a inocência do coração partido.
Porque pela boca, maus e bons desígnios, sempre fala do que o coração está cheio.
Terra de perdição, lar de miséria tão humana.
Onde frustram-se os sonhos e extravia-se o bem querer.
Pois o que era santo e separado, agora, jaz ímpio e maculado.
Crepúsculo dos anjos, a queda da luz perfeita para a obscura imperfeição.
E no abraço leviano, ser levado distante, à provar do beijo, o gosto amargo.
Porque nos braços está a entrega, nas mãos, a confiança, e nos lábios, a intimidade.
E diga então, qual é o juízo perfeito para quem se julga em perfeito juízo?
Não deveria haver crimes sem castigos.
E nem mesmo condenação sem seu devido juízo.
Mas, nem sempre o melhor veredicto é aquele que condena,
Pois, o perdão mora ao lado da dívida, e o dano é vizinho da reparação.
Assim é o poder de perdoar a quem nos tem ofendido.
Mas, quanto as nossas ofensas, quem poderá nos perdoar?
Pois o perdoar, retira do nome, à lama, reintegra a dignidade humana.
Mas, qual é a cura para àquele que aprendeu a perdoar?
É fácil perdoar a quem se ama,
Porém é difícil reparar o dano de quem ama.
De quem ama, quem irá sarar a sua ferida?
Quem dividirá - e tornará leve o seu fardo?
Pois a ferida ficou aberta,
E o ferimento exposto é chamariz de toda impureza,
Infecta a alma, e adoece em dores o corpo.
Haverá bálsamo para cicatrizar sua ferida, oh perdoador?
Ato II
Ao ver teu amor nu, deste-lhe tua capa para encobrir tua vergonha.
Que braços, agora, irão aquecer teu corpo, pois deste-lhe sem pedir-lhe nada em troca?
O amor andaria contigo ainda mais uma milha, daria a vida por um amigo?
Perdoar deva mesmo ser divino, pois, nunca leva em conta tudo o que há de humano em nós.
Que poder há de encobrir a sua vergonha,
Qual força dará novo brilho à sua dignidade,
Quem se atreverá a consertar o que fora partido,
Quem de nós dirá o que é possível para o amor?
Revestido de humildade,
Quebrado pela mais pura e ignóbil vaidade.
Travestido de bom coração,
E marcado cruelmente pela mais torpe decisão.
Digo, com minha própria tenra voz,
E me faço, dos menores, muito menor ainda.
E digo, na minha força, eis o quanto eu sou fraco!
Pois, honestamente, de toda a verdade, é que não sei!
Ato Final
Deus!! Que canso de tanto procurar.
Não corrói minh'alma, por se ter mentido para mim.
E sim, por ter me feito acreditar.
Perdoai a mim, como tenho perdoado a quem me tem ofendido.
Trago em mim marcas e cicatrizes de antigas guerras.
Tenho um humor agridoce, e pessoas que nunca mais tornarei à ser.
Andei por desertos de privações, e já sofri perdas terríveis.
Às vezes, decepcionei alguns, e por vezes, eu mesmo.
Já briguei com Deus, e obviamente, perdi.
Já acreditei no amor, e me magoei.
Já tive medos que jamais foram embora.
Já tive fé, quando na verdade, eu precisava perdê-la.
Se não existe amor, retira de mim este coração.
Se não existe o bem, retira-me deste mundo.
Se não há anjos nesta terra, não me tente a acreditar o contrário.
Se não há quem possa me amar por inteiro, e de coração verdadeiro...
Risca meu nome do livro da vida!
Porque o mundo todo está desmoronando sobre mim,
E parece que já não há mais nada que eu possa fazer.
Eu só quero a minha terra, minha casa, meu lar.
O único refúgio, que mentia para mim, estar seguro.
Talvez essas muitas linhas sejam crônicas de uma vida real,
Ou palavras de um escritor imaginário, sobre fantasias e ilusões.
A verdade, é que escrito, tudo isso, ameniza... a dor.
Não mendigo pena, nem tão pouco deixo de esperar compaixão.
Desejo apenas, dano e reparação.
Λύκος